Roger Waters publica história “censurada” por David Gilmour sobre “Animals”

A relação entre Roger Waters e David Gilmour, ex-colegas de banda no lendário Pink Floyd, parece realmente caminhar de mal a pior.

O novo capítulo da confusão entre os dois é uma publicação feita no site oficial de Waters, que está lançando uma nova edição do disco Animals, lançado pela banda em 1977. A versão inclui novas mixagens em 5.1 das canções icônicas do trabalho, que estavam sendo seguradas por conta de problemas com o encarte.

Isso porque, segundo Roger, Gilmour estaria “censurando” as palavras escritas pelo jornalista Mark Blake para a edição especial do disco, as quais contam uma versão da história do álbum.

Novamente de acordo com Waters, o antigo colega não negou que essa seja a versão correta, mas se recusava a lançar a obra enquanto as palavras de Blake estivessem por lá, no que o baixista enxerga como sendo uma “pequena parte de uma campanha atual de Gilmour/Samson para que Dave receba mais crédito pelo trabalho que fez no Pink Floyd, de 1967 a 1985, do que deveria”.

Na postagem de seu site, Roger Waters aproveitou para declarar que o ex-colega é “um guitarrista e vocalista pra lá de bom”, mas que vem “contando algumas enormes lorotas nos últimos 35 anos sobre quem fez o quê no Pink Floyd” enquanto Roger ainda estava “no comando”.

Ele finaliza pedindo desculpas a Mark Blake e afirmando que concordou em lançar a obra sem a mensagem de Blake, mas a compartilha em sua página — uma vez que também não tem acesso à página do Pink Floyd por conta de David — e garante que toda a história “não tem nada controverso, apenas alguns simples fatos” e foi checada por ele, David e Nick Mason.

Você pode conferir com a nossa tradução abaixo ou acessar na íntegra em inglês por aqui.

Roger Waters e a história “censurada” por David Gilmour
Apesar de ser gravado em Londres durante a longa onda de calor do verão de 1976, o ‘Animals’ do Pink Floyd permanece um álbum sombrio. Sua crítica do capitalismo e da ganância acertou o clima que prevalecia na Grã-Bretanha: uma época de luta industrial, confusão econômica, The Troubles na Irlanda do Norte, e os conflitos raciais em Notting Hill. O álbum foi lançado em 23 de Janeiro de 1977, mas as raízes do décimo álbum de estúdio do Pink Floyd voltam para antes na década. Seguindo o sucesso do ‘The Dark Side of the Moon’ de 1973, o Pink Floyd ponderou seu próximo movimento. Durante uma sessão de improvisos de duas a três semanas de duração no começo de 1974, a banda trabalhou em ideias para três novas composições. Dessas sessões a banda desenvolveu ‘Shine On You Crazy Diamond’, (Um apaixonado tributo a Syd Barrett, palavras de Roger Waters. Adicionado por mim, perdão não pude aguentar.) que se tornou a peça central do próximo álbum do Floyd, ‘Wish You Were Here’, e ‘Raving and Droolin’ (composta por Roger Waters) e ‘You Gotta Be Crazy’ escrita por Waters e David Gilmour.

‘Raving and Drooling’ era uma história de desordem social violenta, enquanto ‘You Gotta Be Crazy’ contava a história de um empresário sem alma que rasgava e roubava para chegar no topo. Ambas foram apresentadas ao vivo pela primeira vez na turnê de inverno do Floyd em 1974. Elas foram ambas consideradas para o álbum ‘Wish You Were Here’, mas Roger insistiu que nenhuma das canções era relevante para a ideia geral, que ‘Wish You Were Here’ era em essência sobre a ausência, e uma vez que nenhuma das canções encaixava em sua concepção do tema geral do disco, nenhuma das canções deveria ser incluída. A banda eventualmente concordou. Passe dois anos pra frente, e Roger teve uma ideia para o novo álbum do Pink Floyd. Ele pegou emprestado da história alegórica de George Orwell, ‘A Revolução dos Bichos’, na qual os porcos e outros animais da fazenda eram reimaginados antropomorficamente. Waters retrata a raça humana como três sub-espécies presas em um ciclo violento, vicioso, com as ovelhas servindo os porcos déspotas e os cachorros autoritários. ‘You Gotta Be Crazy’ e ‘Raving and Drooling’ se encaixavam perfeitamente em seu novo conceito. No meio tempo, um ano antes, o grupo havia comprado uma série de prédios de igreja inutilizados em Britannia Row, Islington, os quais foram convertidos em m estúdio ou local de armazenamento. Antes disso todos os lançamentos de estúdio do Pink Floyd tinham sido parcialmente ou integralmente gravados nos estúdios Abbey Road. O Pink Floyd também havia encontrado um novo engenheiro de gravação. Brian Humphries, um engenheiro dos estúdios Pye, o qual eles tinham conhecido enquanto gravavam a trilha sonora de ‘More’, um filme dirigido por Barbet Schroeder. O Brian tinha então sido engenheiro de ‘Wish You Were Here’ no Abbey Road, e também os ajudou na estrada, então eles passaram a conhecê-lo muito bem. Usar seu próprio estúdio marcou uma mudança significativa nos métodos de trabalho da banda. Houve empecilhos e problemas crescentes, mas também um grande senso de liberdade.

Seguir os instintos do Roger sobre as novas músicas teve resultado, as canções tinham um ar agressivo bastante removido dos espaços sonoros exuberantes de ‘Wish You Were Here’. Era uma mudança de direção na hora certa. Em Britannia Row, ele renomeou ‘Raving and Drooling’, ‘Sheep’ e ‘Gotta Be Crazy’ virou ‘Dogs’. A narrativa estava completa com a adição de duas novas canções de Waters: ‘Pigs (Three Different Ones)’ e ‘Pigs on the Wing’.

Em ‘Pigs (Three Different Ones)’, a letra falava nominalmente de Mary Whitehouse, a chefe da Associação Nacional de Espectadores e Ouvintes. Whitehouse era uma crítica aberta do sexo e da violência na televisão britânica e um alvo tópico para a ira de Roger. O assunto em questão era desolador, mas Nick Mason relembrou momentos mais leves ao sobrepor efeitos especiais e barulhos de curral nas músicas. Enquanto ‘Sheep’ também abriu espaço para a variação de humor negro de Roger para o Salmo 23: ‘He maketh me to hang on hooks in high places/He converteth me to lamb cutlets…’ [‘Ele me faz ficar pendurado em ganchos em lugares altos/Ele me converteu em costeletas de cordeiro’] A música e a performance espelhavam a intensidade das letras. Os sintetizadores misteriosos do tecladista Richard Wright e seu órgão Hammond aumentavam o nível de desconforto. Enquanto o vocal principal dividido com David Gilmour em ‘Dogs’ e sua guitarra em ‘Animals’ ofereciam um contraponto marcante às letras brutais de Roger. Em contraste, ‘Animals’ começava e terminava em uma observação otimista. Os versos de ‘Pigs on the Wing’ foram divididos em dois e encadernavam o álbum. As letras e a performance vocal de Roger da intro e outro acústicas (‘You know that I care what happens to you/And I know that you care for me too…’) [‘Você sabe que eu ligo para o que acontece com você/E eu sei que você liga pra mim também…’] sugeriam esperança para a humanidade. A ideia para o porco voador do Pink Floyd também era de Roger. Ele já tinha pedido a sua construção como um dispositivo de palco para a próxima turnê. O Storm Thorgerson e o Aubrey Powell da empresa de design Hipgnosis, tinham produzido algumas ideias de design para uma capa do ‘Animals’ e apresentaram elas à banda mas ninguém da banda gostou delas, e quando Roger adicionou sua desaprovação alguém disse, ‘Bom por que você não pensa em algo melhor então?’ E então ele o fez, enquanto dirigia de sua casa no Sul de Londres até Brittania Row, ele passava regularmente pela Battersea Power Station. Ele era atraído pelo imponente prédio de tijolos, e pelo número quatro. Quatro na banda, quatro chaminés fálicas, e se a Power Station fosse virada de cabeça pra baixo ela lembrava uma mesa com quatro pernas. Ele foi atrás de sua ideia e fez uma maquete, um modelo em escala menor do que viria a ser o porco inflável em escala completa. Ele então tirou fotografias da Battersea Power Station e criou um rascunho fotográfico de uma capa do álbum. O resto da banda amou. Storm e Po, que tinham feito o design de todas as capas de álbum anteriores do Pink Floyd, graciosamente se ofereceram para encontrar fotógrafos para a sessão de fotos, e o fizeram. No primeiro dia da sessão de fotos, o porco não conseguiu ser inflado. No segundo dia, ele se libertou de suas amarras e desapareceu na direção do belo céu, gerando uma ligação frenética à polícia e a parada de todos os vôos saindo e chegando em Heathrow. O porco eventualmente caiu no campo de um fazendeiro em Kent.

No dia seguinte, a sessão seguiu em frente sem problemas, ótimos registros do porco na situação mas sem o céu avermelhado. Então Storm e Po colocaram o Porco do dia três no céu do Dia dois, bingo! Histórico. ‘Animals’ foi um sucesso, alcançando o número 2 no Reino Unido e o número 3 nos EUA. O porco do Pink Floyd, Algie, fez sua estreia ao vivo na subsequente turnê ‘In the Flesh’ em 1977. Em shows de estádio na América, ele foi colocado ao lado de outra ideia de Waters, uma família nuclear inflável contendo uma mãe, um pai e 2 crianças e meia, cercadas pelos mimos de uma vida focada no consumo: um Cadillac inflável, uma TV enorme e um refrigerador. Roger os chamou de Electric Theatre. Tanto o álbum quanto a turnê sinalizaram o caminho para o próximo lançamento do Pink Floyd, ‘The Wall’, e para as ideias ainda mais ambiciosas de Roger, tanto em relação à sua música, narrativas, políticas e shows no palco. Mas seus temas e ideias explorados em ‘Animals’ ainda perduram. Mais de 40 anos depois o álbum foi remixado em stereo e 5.1. Em tempos problemáticos e em um mundo incerto, ‘Animals’ é tão oportuno e relevante agora como foi antes.

Mark Blake

\m/ Long Live Rock! \m/

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